11/11/2025

A liturgia da caneta tinteiro

A caneta esferográfica é uma invenção tão importante que chega quase a ser definitiva no desenvolvimento de instrumentos de escrita manual. Parece difícil superar. Mesmo na era da informática, onde mais se digita que se escreve manualmente, são as esferográficas que dominam amplamente o gosto das pessoas. Seja pela qualidade, praticidade, simplicidade, baixo custo e até por ser descartável, não há perspectiva de concorrente que ameace o seu quase monopólio.


As canetas tinteiro que dominavam o mercado perderam seu espaço e caíram no esquecimento, principalmente no ocidente. Felizmente ainda não morreram, e continuam a ser fabricadas e compradas por um público pequeno, mas fiel. Há ainda tinteiros para todos os gostos e bolsos. Fabricantes tradicionais sobreviveram e mantêm suas linhas de produção. Lançamentos de novos modelos são frequentes e o mercado de usados é grande, onde colecionadores e aficionados disputam canetas antigas e raras a preços altos.


Usar uma esferográfica não demanda qualquer treinamento, é só escrever até a tinta acabar. Aí é descartada e substituída por outra, pois são muito baratas. Simples assim.


Entretanto, o uso de uma caneta tinteiro demanda cuidados que lembram uma liturgia ou ritual. Não são baratas e é preciso aprender a usar. Demanda limpeza e manutenção. Quando a tinta acaba é preciso reabastecer. Podem ocorrer vazamentos. É um produto composto de várias peças sujeito a defeitos. Enfim, é necessário que o usuário tenha conhecimento detalhado da caneta para poder fazer o melhor uso e isso não é tão trivial. Vejamos:


1-É preciso aprender a usar. 


Inicialmente é preciso identificar a preferência do usuário quanto a espessura da escrita: fina, média ou grossa, para definir a pena de sua caneta. Há ainda opções de pena rígida ou flexível. Depois vem a escolha do sistema de abastecimento de tinta da caneta. Há muitos sistemas, mas as canetas atuais utilizam basicamente cartuchos descartáveis e/ou conversor de pistão avulso, que é um reservatório de tinta com um mecanismo de sucção. Feitas essas escolhas, é preciso abastecer a caneta. O cartucho já cheio de tinta é simplesmente encaixado no alimentador e a caneta está pronta para escrever. No caso do conversor avulso é preciso colocá-lo no alimentador e depois mergulhar a pena no tinteiro para sugar tinta acionando o êmbolo do conversor. Daí em diante o usuário vai aos poucos aprendendo com a prática a melhor maneira de escrever de acordo com seu estilo. Canetas tinteiro diferem da esferográfica, pois não precisam ser pressionadas contra o papel, devido a fluidez da tinta à base de água. A escrita é mais leve. Entretanto é preciso algum cuidado devido a secagem da tinta não ser tão rápida quanto a tinta das esferográficas.


2-Demanda limpeza e manutenção. 


Canetas tinteiro não são descartáveis e costumam durar décadas. Não há perigo da tinta de boa qualidade secar e danificar a caneta, pois mesmo depois de muito tempo é possível fazer a limpeza de uma caneta deixada esquecida com tinta dentro. Para limpar a pena e o reservatório basta usar água. Se for uma caneta que ficou sem uso por muito tempo, basta colocá-la de molho em água e lavar repetidas vezes até ficar limpa.  A limpeza, em geral, é a manutenção suficiente.  É usada também quando se quer trocar a cor da tinta da caneta. Entretanto, é preciso usar sempre tinta de boa procedência e nunca tintas direcionadas para outros tipos de instrumentos. Outro cuidado é nunca usar qualquer outro produto de limpeza que não seja água, pois podem danificar a caneta de maneira irreversível. Álcool, por exemplo, pode danificar alguns tipos de polímeros.


3-Quando a tinta acaba é preciso reabastecer.


Há vários sistemas de abastecimento. Cada qual demanda uma operação própria. O cartucho é o mais simples, pois pode ser descartado e substituído por outro. Pode ainda ser reutilizado usando uma seringa para enchê-lo de tinta novamente. Os demais sistemas em geral requerem o mergulho da pena no tinteiro com tinta e o acionamento do mecanismo. Depois de abastecido o reservatório, basta limpar a pena com um papel absorvente e a caneta está pronta de novo.


4-Pode ocorrer vazamentos. 


A tinta é a base de água, portanto é mais fluida, porém lavável. Então qualquer problema de vedação ou trinca nas conexões das peças pode ocasionar vazamento de tinta. É desagradável, mas faz parte. A caneta tinteiro é composta de partes desmontáveis que eventualmente se desgastam, danificam ou quebram. Neste caso, pode ser necessário algum tipo de conserto, mas geralmente só algum ajuste. Aficionados, com o tempo e aos poucos, adquirem experiência para consertar pequenos danos ou fazerem ajustes por conta própria. 


5-É um produto composto de várias peças sujeito a defeitos.


Peças quebradas ou avariadas podem ser substituídas. No caso de danos mais sérios, em geral será necessário intervenção profissional no conserto. Como é um trabalho artesanal e que demanda ferramentas especiais, normalmente não é um serviço barato. Aí a avaliação da decisão de se consertar ou não vai depender do valor da caneta, seja ele monetário ou sentimental.


Antes do advento das esferográficas, essa prática toda e muito mais, fazia parte do dia a dia das pessoas. Todos conheciam essa liturgia em detalhes, pois usavam canetas tinteiros como hoje se usam celulares, comparável até como símbolo de status. Com o tempo este ritual caiu em desuso e acabou esquecido. Por enquanto ainda atrai um público nostálgico, mas é difícil saber por quanto tempo.