04/03/2026

Johannes Gutenberg e a democratização do conhecimento

Entre 1455 e 1456 a primeira edição das Bíblias de Gutenberg em latim iniciou uma revolução na arte da escrita. Foram impressas na cidade de Mogúncia (hoje Mainz) na Alemanha em torno de 180 cópias (o número exato é incerto) em papel (estima-se três quartos do total) e pergaminho (material muito mais caro) o restante. É considerado o primeiro livro importante impresso com tipos móveis metálicos. É creditado a Gutenberg o desenvolvimento final dessa técnica de impressão, como a confecção dos tipos, do método, da linha de produção e da tinta utilizada a base de óleo. Até então os livros eram manuscritos e demandavam árduos e demorados trabalhos de copistas, o que onerava o preço e restringia o mercado. Foi a democratização da informação, ou seja, o conhecimento se tornou bem mais acessível. A partir de então, as gráficas se multiplicaram pela Europa numa velocidade muito grande.

Com pouco menos de 1300 páginas, foi copiada da Bíblia manuscrita Vulgata, traduzida para o latim por São Jerônimo no século V a partir da Bíblia Hebraica (velho testamento) e outra em Grego (novo testamento). A encadernação era por conta do comprador e a maioria foram encadernadas em dois volumes, mas outras em três e até quatro volumes. Cabia ainda aos proprietários contratar artistas para decorar suas Bíblias com iluminuras e preencher títulos em espaços deixados para essa finalidade, manualmente. Livros deste período, até 1500, são conhecidos como incunábulos e sua escrita tem muita semelhança com os textos manuscritos anteriores.


Sobrevivem hoje 49 exemplares conhecidos desta primeira edição, completos ou não, catalogados de 1 a 49, sendo que apenas 25 são completos. Há ainda incontáveis páginas avulsas originais com colecionadores. Essas 49 Bíblias pertencem a instituições de apenas 13 países, a maior parte na Alemanha e EUA. Algumas instituições disponibilizam versões digitalizadas completas de suas bíblias em suas páginas na internet para consulta de qualquer pessoa interessada.


O Brasil não possui nenhum exemplar da primeira edição, que foram impressas em 42 linhas por página (há, entretanto, algumas páginas com 40 ou 41 linhas) dividida em duas colunas verticais. No entanto, a Biblioteca Nacional do RJ é proprietária de duas cópias em dois volumes cada, de pergaminho (completas) da chamada Bíblia de Mogúncia, edição de 1462, impressas pelos ex-sócios de Gutenberg. Foram impressas com 48 linhas em duas colunas, portanto menor número de páginas que a edição anterior. Estas cópias foram trazidas pela corte portuguesa ao Brasil após a vinda de D.João VI em 1808. Depois da independência, foram adquiridas pelo Brasil definitivamente de Portugal. Estão disponíveis para download digital no site da BN.


Curiosidade: a Bíblia de Gutenberg catalogada com o número 45, hoje no Japão, foi assinada por 4 proprietários anteriores do século XIX e XX. Os três primeiros (homens ingleses) assinaram com caneta tinteiro e o último (mulher americana) com caneta esferográfica (1950). Sinal dos tempos, pois foi na década de 1950 que as esferográficas consolidaram seu domínio na escrita manual. Este exemplar número 45 com apenas o primeiro volume, portanto incompleto, foi a última venda conhecida dentre as 49 cópias. Atingiu o valor total de 5,4 milhões de dólares (incluindo comissões) em 1987.