09/03/2026

Canetês, estilos e dimensões 


No mundo das canetas tinteiro também existe um jargão canetês próprio de linguagem para se referir às características físicas delas e para identificar estilos, dimensões, mecanismos, materiais, adornos, guarnições, etc.


Muitas destas características já foram abordadas em postagens anteriores. Estilos e dimensões, entretanto, são características voltadas ao aspecto visual e ergonômico das canetas e são mencionados frequentemente como se fossem de conhecimento geral, o que nem sempre ocorre. 


1-Estilos.


Algumas canetas são apresentadas em sua descrição com adjetivos em inglês que pretendem descrever como é a caneta, principalmente quanto aos metais e polímeros que foram usados, o que permite diferenciá-las por preço. Dentre eles os principais são:


Special - frequentemente se refere a canetas com características básicas, sem materiais nobres, ou seja, é uma caneta mais barata para uso diário, normalmente toda em plástico, celulóide ou ebonite;


Flighter - corpo e tampa em aço escovado;


De luxe - canetas com clipe folheado ou banhado a ouro;


Custom - tampa folheada ou banhada a ouro;


Insígnia - corpo e tampa folheados ou banhados a ouro.


Porém, nem todas as canetas podem ser classificadas nestes estilos, pois as combinações possíveis não permitem essa rigidez. 


2-Dimensões.


Os tamanhos das canetas variam bastante e são caracterizados pelo comprimento e diâmetro. Em geral, o comprimento pode variar de 11 a 15cm e o diâmetro de 10 a 14mm, mas podem haver exceções. Os rótulos que classificam as canetas em tamanhos não são padrões, são apenas referências aproximadas de suas dimensões. Dentre eles os mais usados são:


Rótulo -  comprimento médio +/- 0,5cm - diâmetro médio +/- 0,5mm


Standart, regular ou full size - 13cm - 12mm


Júnior - 12cm - 11mm


Sub-Júnior ou ladies - 11cm - 10mm


Oversize, sênior ou máxima - 14cm - 13mm


Slender ou slim - 13cm - 10mm


Demi ou half size - 12cm - 11mm


Os comprimentos são com a tampa fechada. A tampa aberta e inserida na parte de cima da caneta aumenta o comprimento em até 2cm.


Como se vê, as dimensões variam mas se concentram num intervalo estreito de valores. Não há padrões definidos, mas há consenso quanto ao perfil de escala.


Por fim, quando nos referimos a dimensões é necessário abordar o confuso assunto dos cartuchos e conversores. Como fazem parte da grande maioria das canetas tinteiro atuais, é preciso estar atento às suas características. Cartuchos são fabricados em dois tamanhos, curto e longo. Os curtos têm comprimento de 3,8 a 4cm e diâmetro de topo de 6,3 a 7,5mm. Os longos têm comprimento de 7cm ou um pouco mais e o diâmetro é igual ao curto para o mesmo modelo de caneta. Entretanto há outras dimensões no cartucho que se deve conhecer: o diâmetro do colar inferior, do colar de encaixe e do furo por onde a tinta passa. Estas três dimensões nos permitem concluir se um determinado cartucho ou conversor poderá ou não ser acoplado a uma determinada caneta. 


É sabido que em geral não há compatibilidade entre cartuchos de canetas, principalmente entre as marcas mais famosas, devido às diferenças nas dimensões do colar e do furo. Entretanto fala-se muito em certos cartuchos tipo padrão universal ou padrão internacional para diâmetro de furo e colar definidos. Na verdade não existe qualquer padrão oficial ou rígido determinado. O que existe é um certo consenso de mercado que utilizam medidas aproximadas de diâmetros de 2,5mm para o furo e 6,3mm para o colar inferior, sendo que o colar de encaixe é de 4mm. Marcas asiáticas (chinesas principalmente) e algumas européias procuram manter dimensões iguais ou aproximadas a essas em suas canetas, o que permite compatibilidade de cartuchos e conversores entre elas.




05/03/2026

Abastecimento de canetas tinteiro


A partir da idéia de acoplar a uma caneta tinteiro um reservatório de tinta, a criatividade dos projetistas deu fruto a uma grande quantidade de diferentes sistemas de abastecimento. 


Basicamente estes sistemas são compostos pela combinação de duas partes. A primeira é um tipo de reservatório, local onde a tinta será armazenada para uso. A segunda é um mecanismo, que acionado sugará a tinta para dentro do reservatório. Reservatório + Mecanismo formam então os sistemas de abastecimentos desenvolvidos. São muitos, mas é possível resumir os mais conhecidos e que foram adotados nas principais e mais famosas marcas de canetas no mercado.


A-Reservatórios:


A rigor, os reservatórios de tinta podem ser classificados em dois tipos: 


R1-utilizando uma parte do próprio cano do corpo (barril) da caneta;

R2-utilizando um saco de borracha ou plástico flexível dentro do barril.


Há duas exceções relevantes: 

1-as canetas que operam com cartucho/conversor possuem reservatório em plástico rígido (o cartucho) ou conversor em plástico ou metal com reservatório próprio do tipo R2 ou rígido, destacáveis. A maioria das canetas modernas usam cartucho/conversor pelo custo/benefício ser favorável e maior praticidade de manutenção e operação.

2-a Parker 61 possuí também um reservatório em plástico rígido que comporta em seu interior uma célula coletora plástica de abastecimento por capilaridade. Ou seja, essa caneta não possui um mecanismo mecânico. Apesar de ter sido abandonado por motivos de dificuldades de limpeza, é o mecanismo mais criativo e elegante já oferecido, devido a sua simplicidade e facilidade de operação (basta inserir a ponta do reservatório no tinteiro que a tinta é sugada para seu interior). Ainda restam muitas canetas desse tipo no mercado de usados e funcionam muito bem.


Há ainda canetas com reservatório, mas sem mecanismo próprio de enchimento. São abastecidas com um conta gotas ou uma seringa.


B-Mecanismos de acionamento:


São vários os mecanismos, mas os mais conhecidos são:


M1-barra de pressão: uma barra metálica é acionada para comprimir um saco de borracha;

M2-pistão: um pistão é acionado mecanicamente por um parafuso em rotação (ou por deslizamento tipo seringa em alguns conversores);

M3-diafragma: uma borracha elástica é acionada por uma haste curta para comprimir o ar e depois gerar sucção por vácuo no tubo;

M4-êmbolo: uma haste longa ligada a um êmbolo é acionada para gerar vácuo no tubo;

M5-pneumático: uma haste longa é pressionada para comprimir um saco;

M6-torção: um botão rosqueável no topo do barril é girado para torcer a borracha;

M7-bulbo: um bulbo tipo conta gotas no topo do barril é apertado repetidas vezes;


C-Sistemas de abastecimento: (SA=R+M) é o meio físico pelo qual é gerada uma ação mecânica que vai sugar a tinta para dentro do reservatório:


SA1-Crecent filler, Lever filler e Botão = R2 + M1, esses três sistemas operam de forma semelhante, o que difere é o terminal de acionamento (meia lua, alavanca ou botão) e a posição e formato de cada um, porém estes terminais são acessados na parte externa do corpo da caneta. Sistemas muito utilizados no passado pela maioria das marcas;


SA2-Aerométrico = R2 + M1, sistema lançado pela Parker semelhante ao SA1, mas acionado manualmente acessando a parte interna da caneta, retirando o barril da seção;


SA3-Vacuometic = R1 + M3, sistema de vácuo criado pela Parker;


SA4-Vacuum fill = R1 + M4, sistema de vácuo criado pela Sheaffer;


SA5- Touchdown e Snorkel = R2 + M5, sistemas criados pela Sheaffer;


SA6-Pistão de parafuso acionado pela tampa cega* = R1 + M2, sistema mais utilizado nos modelos de maior qualidade alemãs, como Pelikan, Lamy e Montblanc. Foi também utilizado pela Conklin no modelo Nozac;


SA7-Leverless = R2 + M6, sistema usado pela inglesa Swan (Mabie Todd);


SA8-Bulbo = R1 + M7, sistema usado pela Eversharp no modelo Bantam (caneta de pequena dimensão).


O SA1 é o mais encontrado na maioria das marcas de canetas antigas. SA2 a SA5 são proprietários e, portanto, mais comuns em suas marcas. O SA6 é mais restrito a canetas de valor mais alto, como as marcas de luxo européias. O SA7 e o SA8 foram pouco utilizados, são mais raros.


*Tampa cega: quando presente, é uma tampa geralmente camuflada e rosqueável situada na extremidade do topo do barril, com função associada ao tipo de mecanismo de acionamento. Pode ter a função de apenas tampar uma terminação do mecanismo ou acionar o mesmo ao ser girado nos sentidos horário e anti-horário ou depois de desrosqueada acionar uma haste ou êmbolo.

Exemplos:

SA1-está presente apenas no sistema de Botão. Desrosquear para retirada;

SA2-não está presente;

SA3-apenas tampa o botão ligado a haste de acionamento do diafragma;

SA4-está ligada à haste do êmbolo de acionamento do abastecimento: desrosquear, puxar e empurrar. Basta um só golpe;

SA5-está ligada a haste de acionamento do abastecimento: desrosquear, puxar e empurrar;

SA6-girando num sentido carrega a tinta e no outro esvazia o reservatório;

SA7-girando torce a borracha de armazenamento;

SA8-apenas esconde o bulbo.

04/03/2026

Johannes Gutenberg e a democratização do conhecimento

Entre 1455 e 1456 a primeira edição das Bíblias de Gutenberg em latim iniciou uma revolução na arte da escrita. Foram impressas na cidade de Mogúncia (hoje Mainz) na Alemanha em torno de 180 cópias (o número exato é incerto) em papel (estima-se três quartos do total) e pergaminho (material muito mais caro) o restante. É considerado o primeiro livro importante impresso com tipos móveis metálicos. É creditado a Gutenberg o desenvolvimento final dessa técnica de impressão, como a confecção dos tipos, do método, da linha de produção e da tinta utilizada a base de óleo. Até então os livros eram manuscritos e demandavam árduos e demorados trabalhos de copistas, o que onerava o preço e restringia o mercado. Foi a democratização da informação, ou seja, o conhecimento se tornou bem mais acessível. A partir de então, as gráficas se multiplicaram pela Europa numa velocidade muito grande.

Com pouco menos de 1300 páginas, foi copiada da Bíblia manuscrita Vulgata, traduzida para o latim por São Jerônimo no século V a partir da Bíblia Hebraica (velho testamento) e outra em Grego (novo testamento). A encadernação era por conta do comprador e a maioria foram encadernadas em dois volumes, mas outras em três e até quatro volumes. Cabia ainda aos proprietários contratar artistas para decorar suas Bíblias com iluminuras e preencher títulos em espaços deixados para essa finalidade, manualmente. Livros deste período, até 1500, são conhecidos como incunábulos e sua escrita tem muita semelhança com os textos manuscritos anteriores.


Sobrevivem hoje 49 exemplares conhecidos desta primeira edição, completos ou não, catalogados de 1 a 49, sendo que apenas 25 são completos. Há ainda incontáveis páginas avulsas originais com colecionadores. Essas 49 Bíblias pertencem a instituições de apenas 13 países, a maior parte na Alemanha e EUA. Algumas instituições disponibilizam versões digitalizadas completas de suas bíblias em suas páginas na internet para consulta de qualquer pessoa interessada.


O Brasil não possui nenhum exemplar da primeira edição, que foram impressas em 42 linhas por página (há, entretanto, algumas páginas com 40 ou 41 linhas) dividida em duas colunas verticais. No entanto, a Biblioteca Nacional do RJ é proprietária de duas cópias em dois volumes cada, de pergaminho (completas) da chamada Bíblia de Mogúncia, edição de 1462, impressas pelos ex-sócios de Gutenberg. Foram impressas com 48 linhas em duas colunas, portanto menor número de páginas que a edição anterior. Estas cópias foram trazidas pela corte portuguesa ao Brasil após a vinda de D.João VI em 1808. Depois da independência, foram adquiridas pelo Brasil definitivamente de Portugal. Estão disponíveis para download digital no site da BN.


Curiosidade: a Bíblia de Gutenberg catalogada com o número 45, hoje no Japão, foi assinada por 4 proprietários anteriores do século XIX e XX. Os três primeiros (homens ingleses) assinaram com caneta tinteiro e o último (mulher americana) com caneta esferográfica (1950). Sinal dos tempos, pois foi na década de 1950 que as esferográficas consolidaram seu domínio na escrita manual. Este exemplar número 45 com apenas o primeiro volume, portanto incompleto, foi a última venda conhecida dentre as 49 cópias. Atingiu o valor total de 5,4 milhões de dólares (incluindo comissões) em 1987.






03/03/2026

Imprensa

Antes da impressão por tipos móveis, a escrita só era feita manualmente com canetas ou penas de mergulho em tinta e livros eram produzidos e copiados por profissionais copistas, os escribas.

Até meados do século XV, se você pretendia ter um livro qualquer, era preciso conseguir uma cópia manuscrita e contratar um copista para reproduzir o conteúdo novamente. Imagine o tempo que isso tudo demandava. O custo era muito alto, o que restringia a prática a pessoas abastadas. Ter um livro não era para qualquer um. Isso tudo mudou na segunda metade do século XV com a invenção da máquina impressora ou prelo, composta de uma prensa e formas de tipos móveis. Foi um golpe mortal para a antiga profissão dos copistas.


Prensas já eram utilizadas por produtores de vinho e azeite e gravações em papel ou pergaminho eram feitas de diversas maneiras. Tipos móveis de metal, entretanto, não eram conhecidos. Foi preciso elaborar um método para sua produção e fabricar as ferramentas necessárias previamente. Johannes Gutenberg tinha as habilidades e a perseverança necessárias para a empreitada que revolucionou o mundo. 


Basicamente a produção de um tipo metálico que reproduz uma letra ou símbolo passa por três etapas principais:

A-Punção: a letra é esculpida na ponta de uma barra de aço duro em alto relevo. Esse é um trabalho artesanal artístico;

B-Matriz: em uma barra de metal mole a letra é estampada em baixo relevo pela punção, com um golpe de martelo;

C-Molde: caixa metálica desmontável projetada para acomodar a matriz, ser fechada, possuir um orifício por onde possa ser despejado metal derretido e depois ser aberta e retirada dali o tipo fabricado. O processo é repetido milhares de vezes para cada letra e símbolo até haver quantidade suficiente para compor o que se pretende imprimir.



Depois de fabricados, os tipos serão montados reproduzindo o texto em formas no formato de páginas, que recebem tinta em sua face para serem prensadas junto ao papel ou pergaminho. Assim nasceu a imprensa.


É impressionante o esforço que isso tudo demanda. Pois foi assim que por volta de 1450 Gutenberg e sua equipe gráfica deram início à imprensa em Mainz, Alemanha. Seus primeiros produtos serviram de testes. Foram publicados indulgências, calendários e um livro didático de gramática latina, Donatus.


E depois? Toda nova tecnologia começa com desconfiança e essa não foi exceção. Era necessário produzir algo que demonstrasse todo o seu potencial e que ao mesmo tempo tivesse mercado, causasse impacto e proporcionasse lucro. Gutenberg escolheu então o seu alvo: a Bíblia.